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| A obra do século ou prêmio “ignobel” de gestão pública? |
Quinta-feira, 05/04/2007 |
As autoridades de São Caetano do Sul realizam a obra que ficará registrada na história da cidade como a "obra do século" por suas decorrências práticas e simbólicas.
Recentemente, um consórcio de cientistas internacionais, reconhecidos em suas competências por todas as nações, confirmou o que o bom senso dos cidadãos já pode ver e sentir no dia a dia, o grave problema do clima ou a questão ecológica. A situação do clima é um problema tão grave, que hoje em dia é a saúde e bem estar de todos, ricos ou pobres, que se encontra em jogo, e a médio e longo prazo é a própria sobrevivência da humanidade que corre perigo, conforme ficou claro na manifestação dos cientistas.
Daqui para frente, deveria ser necessário pensar muitas vezes, e sob reais imperativos sociais, para se devastar florestas ou suprimir áreas verdes, uma vez que a supressão do verde, ao contrário do que vinha ocorrendo, terá de ser ponderada em metros, e não mais em hectares.
Entrementes, em nosso Município, as autoridades aparentemente indiferentes a tudo isso, estão empenhadas em amputar uma praça da cidade mediante uma edificação que ocupará parte considerável do espaço existente. A justificativa apresentada, conforme consta das placas enunciadoras da obra é a construção de um “centro digital para o ensino fundamental”. O motivo é certamente nobre é louvável. Mas será que estamos condenados a arrumar uma coisa estragando outra?
Não fora a questão do clima, a amputação de um parque público, de há muito estabelecido e utilizado regularmente pela população, é igualmente fato questionável. Os parques nas cidades preenchem atualmente funções sociais inestimáveis mundialmente reconhecidas, como a promoção da cultura, o embelezamento urbano, o lazer, e o bem estar da população, no que se inclui contribuição significativa para a habitabilidade e saúde públicas.
As condições em que se realiza essa obra, denominada com o eufemismo de “revitalização da praça”, quando o certo é que a própria está de fato sendo “mortificada”, apresenta também importantes conotações simbólicas. A obra realiza-se não num recanto afastado do município, mas no seu centro nevrálgico, e de frente para a principal avenida da cidade que serve de ligação entre São Paulo, Santo André, Ribeirão Pires e Mauá dentre outros municípios. Com isto, a amputação da praça poderá ser conhecida não apenas dos munícipes de São Caetano, como também de milhares de pessoas de outros municípios. Pelo visto, as autoridades pouco estão se importando com esta visibilidade da obra, seja porque elas acreditam que a própria seja tomada majoritariamente como uma expressão de progresso, seja porque estão pouco se importando com a opinião da população.
Seja como for, é quase inimaginável que nesta quadra histórica, no século XXI, gestores públicos de um dos municípios mais ricos do país, e de uma das regiões mais industrializadas da América Latina, apresentem um projeto com esse teor, o aprovem e coloquem em execução. Mas, inimaginável ou não o projeto está em andamento.
Cabe à população do município chamar imediatamente o assunto para a discussão pública irrestrita, pois o mais provável é que o bom senso prevaleça e de alguma forma a obra seja revertida.
Entretanto, caso isto não ocorra, as autoridades de São Caetano deverão então comparecer nos anais da história como tendo realizado a sua “obra do século”, uma obra que certamente fará jus ao prêmio “ignobel” de gestão pública. |
Candido Giraldez Vieitez – SP |
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